Ataija de Baixo

Capela de Nossa Senhora dos Enfermos

Festa da Sehora dos Enfermos

Esta festa realiza-se no dia do Pentecostes seis semanas após a Páscoa.
É uma festa muito antiga. Manuel Vieira Natividade faz referência a ela no seu livro "O Povo da Minha Terra", de 1917, dizendo que «é a romaria mais original da minha terra...» e que «é a única que conserva notas que mais interessam a etnografia». Vale a pena transcrever algumas notas do mesmo livro:
«Começa pelo jogo do frango, na véspera, que é o domingo do Espirito Santo. É um curioso, embora bárbaro divertimento.
Ao chegar da tarde, faz-se no adro da capela, uma escavação no terreno, determinando um ângulo agudo, em que um dos lados é vertical e com a profundidade de cinquenta a sessenta centímetros. No vértice desse ângulo enterra-se um frango, ficando apenas com a cabeça fora da terra. Do lado oposto à abertura, e a distância previamente estipulada, é que devem ser lançados os projéteis. Quem quer jogar escolhe pedras das formas e dimensões que lhe convêm e o direito de as lanças compra-se a uma real por cada uma.
A lapidação começa. As pedras são lançadas e muitas delas são precisas para matar o condenado.
As pedras vão caindo, e o lado vertical do ângulo tende a desaparecer. Por vezes é preciso descobrir a cabeça do frango. oculta pela terra que cai. À proporção que o ângulo se desfaz, aproxima-se a morte do paciente.
Levantam-se discussões sobre o valor da pedra que cai e, algumas vezes, há desesperadas brigas. Uma pedra chega enfim, que esmaga a cabeça do condenado. O morto é desenterrado e entregue ao vencedor no meio de grandes aplausos.
A cena repete-se enquanto há luz».
Refere-se ainda no mesmo livro, que neste dia, a seguir a este jogo «algumas vezes, segue-se um jardim de fogo». E que no dia seguinte há «as fogaças ou ofertas», e a «chegada dos círios que de longe vêm fazer a sua romagem e trazer o seu óbolo».
As ofertas são de vários tipos: «As ofertas da juíza e ajudanta estendem-se em tabuleiros cobertos por alvas toalhas, de largas rendas. São variáveis. Compõem-se, em geral, de bolos, frangos assados, pães de ló, vinho, pão, fritos, doces, frutas, e rocas de pinhões... As ofertas restantes são curiosas notas, interessantes documentos das casas em que a Santa foi chamada para acudir às aflições do lar. Vêm os milagres em cera, isto é a representação dos membros doentes. São pernas, braços, seios, cabeças, figuras humanas, etc.,... Seguem-se as ofertas por devoção, que são, em geral, em dinheiro, géneros alimentícios, galinhas, frangos, etc.
Tudo é vendido em leilão, exceto os milagres de cera, que, de grades especiais, ficam patentes na capela mor, como um registo de prodígios».
Continua uma descrição da festa:
«O arraial é extenso e toda a gente da aldeia oferece a sua casa, o seu pão e o seu vinho. À tarde começam os bailes, e o harmónico é o instrumento musical preferido. Dança-se o fandango, única dança tradicional que se conserva como digno representante dos mais arcaicos batuques... Quando não há música canta-se para dançar: -é o momento dos desafios, onde se dizem amabilidades e coisas terríveis. Com o desaparecer do sol acaba a romaria, indo-se continuar os bailes nas casas da aldeia»
Como já foi referido vinham a esta festa em peregrinação vários círios como o Círio da Fonte Santa ou o das Talas e arredores. Faz o mesmo autor uma descrição dos mesmos círios:
«Organizava-se uma extensa cavalgada. Abre o cortejo a gaita de foles, segue-se o juiz, montado em animal bem ajaizado, levando na mão a bandeira com a insígnia do santo. Ladeiam-no duas crianças vestidas d' anjos fantásticos, que, em todas as igrejas do trajeto, entoam loas adequadas; segue-se a cavalgada.
Chegado à capela do destino, dão três voltas em roda dela enquanto os foguetes estalam no alto e a gaita de foles faz vibrar os seus modilhos. Ao fim da terceira volta e diante da porta da igreja dizem-se as loas da chegada, como logo se dirão as de despedida.
Depois vão festejar, isto é, ouvir missa da romagem. Quase sempre a gaita de foles é a música da festa. E qua linda e doce que é essa música tradicional, muito especialmente os trechos do Sanctus e do Levantar a Deus.
Depois de vendidas as fogaças e feito o peditório retira-se na ordem em que chegou».
Por sua vez José Diogo Ribeiro no seu livro "Turquel Folclórico", de 1928, diz do mesmo círio o seguinte: «vai um pequeno círio da Lagoa das Talas, ou arredores, festejar a Senhora dos Enfermos na sua capela na Ataíja. O círio, que leva dois anjos e o indispensável gaiteiro, indo todos montados, faz, ao chegar, três giros em volta da capela, o que é da praxe em muitas romarias, seguindo-se a missa, e depois o arraial com seus comes e bebes. Por fim circula novamente em torno da capela, e todos recolhem a penates, muito contentes da vida.
Os anjos, à chegada, à retirada e me vários pontos do cortejo, deitam suas loas, compostas por ingénuos versos sertanejos, e que dou aqui esta mostra:

Ó Senhora dos Enfermos:
Aqui vimos, aqui estamos;
P'ra o ano, se formos vivos,
Ainda cá tornaremos.

Ó Senhora dos Enfermos:
Cá vos vimos visitar;
P'ra o ano, se formos vivos,
Havemos de cá tornar.»

A festa ao longo dos anos foi perdendo muitas das suas características.
Depois do círio se ter deixado de efetuar, ainda participavam na procissão alguns burricos todos enfeitados que davam também três voltas à capela. Atualmente, celebra-se uma missa seguida de procissão que apenas percorre as ruas da aldeia, com os santos nos andores e acompanhada por uma banda. Efetua-se também um arraial com tudo o que é usual numa esta deste tipo incluindo jogos tradicionais. Há quem faça ainda piqueniques no meio dos campos da serra.
Registe-se como curiosidades que durante alguns anos a festa foi alegrada pela conhecida banda do "Mestre Ernesto" de Alcobaça, e que aqui se deslocava também um fotógrafo "à la minute", o que era raro em tais ocasiões.

Festa de São Sebastião

S. Sebastião é o padroeiro da terra. Esta festa realiza-se num fim-de-semana próximo dos dia 20 de Janeiro podendo variar, pois o S. Sebastião comemora-se também noutros sítios, sendo escolhidas semanas diferentes para não haver coincidência de festas.
Faz parte da festa uma comissão composta por um juiz, uma juíza e festeiros, que são nomeados no ano anterior. Durante a festa o juiz entrega a bandeira de S. Sebastião ao juiz do ano seguinte.
As ruas e o adro da ermida são previamente ornamentados com arcos de verdura, flores de papel e iluminação elétrica, que serve para iluminar o recinto dos bailes. Monta-se também o serviço de restaurante e a quermesse que estão ao dispor dos romeiros os dois dias.
O Sábado começa com alvorada e os festeiros vão fazer a ornamentação da ermida. Há noite efetua-se um baile até de madrugada abrilhantado por um conjunto musical.
No Domingo, depois da alvorada, os festeiros fazem o peditório por todo o lugar acompanhados pela Banda Filarmónica. Por volta das 14 horas celebra-se a missa acompanhada pelo grupo coral da freguesia. Segue-se o arraial onde nada falta para um resto de dia bem passado. Há também jogos tradicionais, venda de ofertas, leilão com as dádivas do povo da terra e um baile com outro grupo musical que se prolonga para a noite.
Tudo termina com uma grande salva de foguetes.

Poço Medieval

Localizado junto da Capela de Nossa Senhora dos Enfermos e da Associação Cultural e Recreativa "Ataija de Baixo" fica um poço medieval o qual está em ótimo estado, fruto da recuperação levada a efeito em 1997 pelo Parque Natural da Serra D' Aires e Candeeiros, pela Junta de Freguesia de São Vicente e pela Câmara Municipal de Alcobaça.

Associação Cultural e Recreativa

Cruzeiro de Ataija de Baixo

Galeria de imagens

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